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Texto do Fundador do Futebol Clube de Gaia, Manoel dos Santos, publicado na edição única de O “GAIA”, em Outubro de 1933, comemorativa dos 25 Anos do Clube

Mea Vila de Gaia

Vai para meio século que eu vi a luz do dia no risonho rincão que encima a mais alta colina do Douro, junto à sua Foz.

Era ainda senhorio da fortaleza que encerra as vetustas paredes do convento da Serra do Pilar, onde havia quintas e campos de lavrador e que hoje se encontra cortada de ruas e avenidas ladeadas de casaria que lhe dá um aspecto de cidade. O morro que do forte cortava em corcovas, na direcção do rio, ainda não tinha sido talhado a pique para deixar passar a Avenida da República, nem arrazado para que se construísse o parque que é passeio predileto das gentes d’aquem e d’alem rio.

Uma ou outra casita; um outro esboço de rua – lamacento caminho então – formavam os primórdios d’essa povoação que é, actualmente, cabeça de vila e do concelho.

Tinha eu quinze anos e estudava num dos liceus do Porto. Umas dezenas de inglezes entretinham-se em jogos desportivos para os quaes procuravam parceiros entre os seus amigos portuguezes.

Formavam-se os Clubs de Foot-ball, na rua da Rainha, no Bessa e em Leixões.

Aquele jogo exótico e movimentado mal se adoptava ao feitio assomadiço e brigão da gente portugueza mas, por isso mesmo, talvez, começou a arranjar adeptos, primeiro por curiosidade e por hábito ou gosto, depois.

Também eu fui movido pela curiosidade e tomei o gosto pelo novo divertimento. Comigo entraram outros que mais tarde foram azes de foot-ball: Elísio Bessa, Magalhães Basto, Mário Maçãs, Manoel Valença e alguns mais. Da minha terra, iam o Mário Pinho, o Chico Figueiredo, o Joaquim Rocha e o Vital.

Entrou de crescer o número dos entusiastas e pensou-se em formar um grupo na Serra do Pilar que pudesse enfrentar outros grupos já formados. E campo de jogos? E sede?

Não era difícil para moços como nós a resolução de tal problema.

Onde hoje é campo de exercícios militares e carreira de tiro, havia lá no fundo, o chão plano que servira de redondel à Praça de touros e ainda existiam as cabeceiras da pista do velódromo.

O terreno servia porque era plano e tinha largueza bastante mas estava pejado de entulheiras que dificilmente se removeriam.

Metemos mãos à obra e era de ver com nos ajudavam outros rapazes que para o grémio entraram, possuídos da mesma febre de entusiasmos.

O Cristiano, o Albuquerque, o Fiuza, os Almeidas, os Grijós, o Blé (Augusto Brandão), o Coelho, o Pedro Pereira, o Alberto, os irmãos Pereira, enfim duas dúzias de rapazes ricos de vontade e sem um pataco para mandar tocar um cego. Ao cabo de dois mezes o campo duro como um osso e limpo como um salão de baile, cercado de cordas e tendo a cada cabeceira umas traves sem redes servia de teatro à nossa primeira exibição do pontapé na bola.

A sede arranjei eu em um cubículo do armazém da carqueja na padaria de meus pais. Lá reuníamos para deliberar sobre a nossa vida associativa e para marcar encontros com outros grupos do Porto que eram tão prósperos e conhecidos como nós.

Chamavam-nos doidos os mesmos que agora eu vejo pelas bancadas dos grounds dando berros e aplaudindo freneticamente os seus filhos ou os seus netos.

O concelho de Gaia teve nesse primeiro núcleo de rapazes de há 25 anos, o foco de cultura que enxameou as suas freguezias, de praticantes das diferentes modalidades desportivas.

Foi assim que nasceu o Foot-ball Club de Gaia e d’ele irradiaram todos os outros, senão pelos seus componentes, ao menos pela ideia que o criou.

E foi o único serviço que à minha vila de Gaia prestei pela vida fora

Manoel dos Santos

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